quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Revisitando o tema do momento: os MOOC

Um post da autoria do Professor António Teixeira (Vice-presidente da European Distance and E-learning Network).

Em resposta ao desafio que me foi lançado pelo Paulo Simões e na esteira da interessante reflexão do Prof. António Figueiredo e também da troca de impressões com o João Mattar neste mesmo curso, decidi focar o meu breve contributo na problemática dos MOOC. Este é, certamente, o debate do momento. De modo quase surpreendente, a oportunidade/ameaça colocada pelo desenvolvimento dos MOOC tomou conta da discussão internacional na área do EaD nos últimos meses. Na realidade, mais do que um tema da comunidade de investigadores ou practioners, os MOOC são compreendidos hoje como uma das mais decisivas problemáticas com que se deparam as lideranças académicas de todo o mundo. O que explica este fenómeno surpreendente? Será este súbito interesse sustentável?

Uma possível resposta à segunda questão foi há pouco sugerida por Larry Johnson, o mentor e coordenador dos Horizon reports. Com efeito, só um desenvolvimento no EaD conheceu até hoje um impacto tão grande de modo tão rápido. Tratou-se do «Second Life». Todavia, o sucesso desta tecnologia foi tão acelerado e imediato quanto fugaz. Dois ou três anos depois do seu aparecimento, já estava praticamente ultrapassada. Terá o fenómeno dos MOOC o mesmo destino? Uma coisa parece certa, dado o tipo de disseminação deste desenvolvimento. Dentro de dois/três anos ou os MOOC farão parte da oferta regular das instituições de ensino superior ou todo este interesse estará definitivamente ultrapassado.

Qual é, então, a razão para todo este enorme interesse pelo tema? A principal razão prende-se com o facto de que um conjunto de universidades americanas de topo, da Ivy League, terem decidido avançar de modo decisivo no lançamento de iniciativas cujo potencial parece ser enorme (Coursera, edX e Udacity). Mais ainda, estas iniciativas foram capazes de desenvolver um modelo de negócio comercialmente viável e que atraiu o investimento do capital de risco. De facto, o crescimento da comunidade de utilizadores do Coursera, iniciado no início deste ano, está a crescer a um ritmo fenomenal, mais elevado ainda do que o que caracterizou o Facebook.

Assim se compreende porque razão este negócio emergente despertou tanto a atenção das lideranças universitárias. Com efeito, o sucesso deste modelo de negócio baseia-se num princípio de globalização económica o qual conduz a uma perigosa conclusão. Com efeito, a disseminação da oferta educativa massiva dos melhores produtores de conteúdo, associada a redes mundiais de instituições avaliadoras, conduzirá a uma efetiva globalização do mercado educacional, o que implicará uma redução dos operadores. Em suma, as universidades da Ivy League por via de associações estratégicas entre elas poderão vir a dominar o mercado mundial da educação superior, afastando do mesmo muitos, senão a maior parte, dos atuais operadores. As previsões mais otimistas apontam mesmo para uma quase completa erradicação das instituições universitárias nacionais.

Ora, importa notar que a ameaça dos MOOCs americanos que está a conduzir o interesse referido atrás não se relaciona com o seu modelo original, de natureza conectivista. O modelo que, no seu post, o Prof. António Figueiredo elegeu como mais interessante. Não são efetivamente os c-MOOC que estão no centro do interesse, mas os x-MOOC, ou os MOOC centrados na distribuição de conteúdo. Claro que os promotores destas iniciativas têm no essencial uma boa compreensão das limitações do modelo que utilizam. Por isso, também os seus MOOC estão em evolução, tendo vindo a integrar ferramentas que valorizam o apoio à aprendizagem e a autonomia do estudante. No fundo o mercado segue os desejos dos seus consumidores.

Aparentemente o dilema da escolha entre os modelos dominantes de MOOC é, pois, claro. Necessariamente, coloca-se a pergunta sobre a sua ultrapassagem. Haverá uma saída? Conseguiremos encontrar um modelo de compromisso? Para utilizar a categorização proposta no texto do Prof. Figueiredo, poderá esse compromisso juntar as características disruptiva e desconstrutiva a um modelo de negócio escalável e que garanta uma avaliação das aprendizagens confiável? Em suma um modelo inovador que não se baseie nas skills produtivas, nem no conhecimento colaborativo, mas no talento de comunicar e criar?

Tudo indica que nos próximos meses iremos assistir ao surgimento de um conjunto infindável de diferentes tipos de MOOCs. Creio que este contexto de excesso produzirá um modelo mais equilibrado dos que conhecemos neste momento, que garanta um compromisso entre a grande escala e a qualidade e integridade da experiência de aprendizagem flexível. Algo, no fundo, historicamente semelhante ao que levou as Universidades Abertas europeias a regenerar o movimento dos Recursos Educacionais Abertos, meia década atrás.

Todavia, creio também que a verdadeira capacidade disruptiva do movimento de abertura da educação, não reside nos cursos e nos seus modelos, mas nas instituições e respetivos modelos. O futuro alternativo dos MOOCs tem de ser, a meu ver, procurado nos modelos institucionais flexíveis centrados na inovação (Cf. TEIXEIRA, António; “Desconstruindo a universidade: Modelos universitários emergentes mais abertos, flexíveis e sustentáveis”, RED - Revista de Educación a Distancia, XI:32, 2012 (accessible in http://www.um.es/ead/red/32).

Reações:

8 comentários:

  1. ÓTIMA reflexão, professor António! Coloca o dedo na ferida. Realmente a questão da globalização associada à necessidade de 'redimensionamento' (para não dizer redução) dos custos da educação é, por si só, suficiente para pensar que por detrás de algo que se oferece (como supostamente grátis) estará uma intenção menos valiosa do que a da educação. Tive oportunidade de lançar um pouco esta questão em cima da mesa com o professor António Figueiredo que, ao defender os cMOOCs coloca-se numa perspetiva, para mim, pouco real daquilo que se passa (pelo menos quando as grandes universidades americanas estão por detrás dos MOOC - elas (nem Bill Gates que vai investir 1,4 milhões em projetos de investigação na área - http://ht.ly/fi3yT) não estariam lá se não existisse um interesse económico na educação,).
    A proliferação de MOOCs em português está a começar. O primeiro (MOOC EaD) apresenta-se mais como um cMOOC (que conta com os instrumentos da web 3.0 e com a sua 'desorganização' como uma mais valia), mas outros começam a estar integrados em instituições de ensino superior (como http://moocbullying.blogspot.pt/#DpOVi5RWx3h9Lpcq.01 - CCTIC da ESE de Santarém). Penso que é como diz: o futuro a curto prazo nos dirá o que irá acontecer.
    Por outro lado e visto que compartilha desta ideia de que com a globalização económica haverá cada vez menos necessidade de operadores especializados, como vê a possibilidade de introdução de mecanismos da web semântica e de inteligência artifical nos MOOC? Não será esse um dos futuros alternativos?

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  2. Cecilia, gostaríamos apenas de acrescentar que o MOOCEaD está vinculado a uma instituição de ensino, o TIDD - Programa de Pós-Graduação em Tecnologias da Inteligência e Design Digital da PUC-SP

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    1. Agradeço o esclarecimento (embora tivesse a perceção de haver a ligação a uma instituição - neste caso brasileira, certo?). Apesar disso, e para perceber as diferenças, já me inscrevi no outro MOOC que referi (e tenho pena de não ter tempo para me inscrever em mais - eventualmente no próximo ano irei inscrever-me num dos tão afamados MOOC do Coursera :) Já agora há por aqui alguém com experiência em MOOC numa das tão afamas instituições referidas pelo professor António? Seria interessante perceber como funcionam :)

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  3. Olá a todos e parabéns ao prof. António Teixeira por este excelente post.
    Um modelo inovador de massas (disruptivo+desconstrutivo) que se baseie em talentos de comunicação e de criação, deverá sempre, a meu ver, valorizar as “diferenças” entre os seus participantes (voluntários, que pertençam ou não ao sistema dominante), precisamente daqueles que apresentem ideias e ações conscientes, mesmo que nesta fase de desconstrução essas ideias se afigurem ser aquilo que ainda não são, mas que primem em qualidade e pelo menos evidenciem um estado de inquietação daqueles que procuram a superação de eventuais falhas existentes no sistema dominante.
    Como foi referido há uns tempos atrás pelo prof. António Dias Figueiredo, sem problematização não há ciência, e por isso não haverá construção de novos valores. Deixo-vos então aqui umas questões inspiradas, mais uma vez pelas suas referências, precisamente pelo tópico “agenda de investigação” e “estratégias e técnicas de avaliação contextual” (veja-se em http://ow.ly/eNJU4): Qual das estratégias e técnicas de avaliação apresentadas se poderá aplicar no MOOC Ead, para uma melhor avaliação de “diferenças”, que atrás referi?
    Será que o MOOC EaD se baseia numa “política” de aristocracia democrática? Passo a explicar melhor, num modelo onde a atribuição de valor pertence àqueles que mais se evidenciam ou se predisponham a pensar pela coletividade? Tenho algumas dúvidas se fui clara ou não!

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    1. Vou tentar ser um pouco mais clara. De facto a ideia dos badges é interessante e até compensadora,, mas não a considero suficiente para medir os talentos que o professor António Teixeira refere...

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  4. Ora viva, Professor António Teixeira

    Parabéns pela sua panorâmica dos MOOCs,

    No entanto, a aplicação prática dum MOOC vai depender de quem o vive e essa vivência passa pelos recursos disponíveis e ao alcance das multidões.

    O caminho aberto às multidões (onde as pessoas estão ligadas pela internet) leva-nos a um mercado onde os bens são abundantes e a matéria-prima é suplantada pelo conhecimento.

    A inteligência na rede surge como resposta social à mercantilização tecnológica e na leitura da sua perspetiva, fica-me a dúvida de saber qual o seu entendimento de como levar estas novas dinâmicas a quem não as tem?

    Tento uma aplicação prática de Conferências Abertas, ver Blogue de Gaspar Amaral (http://gasparamaral.blogspot.pt/)

    Até já,

    Gaspar Amaral


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  5. Os MOOC, como nova proposta de trocas e aprendizagem colaborativa em rede, na qual os recursos e conteúdos digitais estão abertos para todos que tiverem interesse, é um conhecimento relativo novo para mim. Mas aos pouco vou pesquisando, interagindo, aprendendo e inserindo em minha prática de ensino. Vale ressaltar que a internet é aberta e, claro, por traz de muitos conteúdos disponíveis na rede há interesses comerciais. Então, cabe a nós educadores também sabermos separar o que deve ser aprofundado e incorporado a nossa atividade de ensino.

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  6. Obrigada, Professor Antônio Teixeira pelos questionamentos e esclarecimentos

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